Eu abri o livro e a carta caiu. O que você me dera há alguns dias e que já figurava entre os meus favoritos.

E eu que sempre pensei que quem pegávamos no amigo secreto era alguém com quem teríamos algo a resolver. Não sei de onde veio isto, talvez daqueles livros de auto-ajuda que eu lia na adolescência e que diziam que há um porque em tudo o que acontece no universo. Mas vamos ficando mais velhos, mais "sábios" e então passamos a achar que tudo o que acontece, no máximo acontece para nos prejudicar. E foi você que me tirou. E nós tinhámos tanta coisa para resolver...

Quando eu li a carta aquele dia fiquei decepcionado, pensava que como num toque de mágica, como num mundo perfeito, onde as pessoas tiram as outras no amigo secreto o fazem porque existe algo para resolver, você simplesmente voltaria para mim. Diria que esse tempo todo foi só um ajuste e que teríamos de novo a nossa cama gigante onde um grande corpo de duas pessoas ocupava um pouco menos da metade dela. E naquela hora a carta me frustrou. E só agora, com o papel nas mãos, vejo que um pássaro fala corações. Não posso deixar de pensar em mensagens enviadas pelo subconsciente. Por que esses corações? São eles que ferem o meu agora. Mas lembro que talvez por essa força mística, existente ou não, do amigo secreto, você voltou a ficar próxima, a me tocar e até a sentar no meu colo. Tive medo de te pedir algo, pois o medo de ser rejeitado mais uma vez me obstruiu como fazem todos os medos que atordoam as nossas vidas.

O pássaro cantava corações e nós dois estávamos tão lindamente desenhados ali. Como duas crianças inocentes, que se juntam porque são os únicos da escola que conseguem conviver um com o outro. O passáro canta. Será que um dia ele voltará? Será que cantará de verdade. "Onde estás? Nas nuvens ou na insensatez? Me beije só mais uma vez depois volte pra ..."