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Mais uma vez tive a sensação de ter vivido o ideal, de ter reunido no plano onírico todas as perfeições concebíveis e independentes da realidade. Pareço ter nascido para viver lá, onde, para mim, tudo se parece mais adequado. Talvez eu devesse fechar os olhos para poder viver de verdade. O Esaú Wendler tem razão quando diz que “a realidade é o pesadelo do mundo dos sonhos.” Mas apesar desta minha fascinação pela subjetividade, sei que ela não moldará o mundo condensado no qual passo a maior parte do tempo.

Aquela maravilhosa música que vez por outra aparece no meu sonho me veio ter de novo esta noite. Quão bela ela é! A satisfação de sonhar só existe porque durmo esperando tê-la ao meu lado. Só para mim. Hoje estava muito forte, mais do que nunca. Ainda está próxima... como se tivesse viajado junto com minha consciência e agora também terá que enfrentar os desafios deste outro mundo, forçando-se para existir - assim como eu - numa realidade que não é a sua.



Uma força concentrada abaixo do seu corpo o leva para cima da superfície e ele começa a movimentar os braços, ao tocar a água sente suas mãos ainda mais geladas. Quando a esquerda vence a resistência da superfície, ele a empurra mais para baixo e depois a puxa para trás, conduzindo-a até o quadril. Ao sair, entra a outra para repetir o mesmo semi-círculo.

Quem o avista de cima do morro, vê apenas mais um desconhecido, de roupa preta, boiando e agitando os braços no oceano. Mas ele está dentro do movimento e vive um certo "ênxtase" de tanta consciência que deposita no ato. Questionou-se outrora se seria melhor ficar com o braço mais ou menos tempo dentro da água, testou as duas formas e como não percebeu diferença alguma, deixou a circunvolução, ocorrer naturalmente.

Mais por intuição do que pelo que vê, sabe que precisa estar rapidamente lá fora. Faz mais força. Rema. O mar cresce à sua frente e a primeira onda passa eclipsando a visão do sol quase vermelho que se põe no horizonte. Quando conheceu o outro lado do continente, afligiu-se por não poder desfrutar da magnífica imagem da bola laranja mergulhando no oceano. Decididamente ao se por atrás das montanhas não produz aquele efeito deliciante nas retinas.

A segunda onda parece ainda maior. Por fora é apenas um movimento do mar, por dentro, uma maré de sensações alarmantes que chegam como uma forte pontada nas suas entranhas. Se parece com a que sentiu há alguns anos quando a menina que tanto apreciava apareceu na festa. O medo e o desejo andando lado a lado, como se um fosse extensão do outro. O pavor da reprovação competindo com a possibilidade da glória. E assim como a garota, ele a deseja somente para si. As disputadas influenciam a intensidade do seu querer. Ele a quer, de verdade, quer sim, quer muito.

Pensar em como as pessoas o admirarão após a conquista invariavelmente influenciará seu desempenho e como somente a excelência irá satisfazê-lo, é preciso que esteja unicamente consigo.

A onda vem. Sua prancha que até então tem seu bico apontado para o horizonte se vira para a praia. A sensação gélida que outrora sentira apenas nas mãos, se espalha por dentro do seu corpo. Lembra da admiração dos outros e sua inquietude se acentua. Volta-se para si. Sente-se. Respira fundo. Volta a pensar nos outros, apreensão, torna a si. Mais uma respiração sentida.

Ele rema. A imprevisibilidade do mar desaparece. É como se ele tivesse descendo uma rampa de concreto. Ele se integra ao movimento e ao chegar na base, volta a subir. Precisão. Faz exatamente o que deseja. Busca o topo da onda e completa o movimento. É preciso e perfeito. Êxtase. Euforia. Olha para os lados, ninguém o viu. Está só...

Tive a sorte poder frequentar no mesmo final de semana em Florianópolis dois eventos bastante motivantes: o Festival Internacional de Yôga que acontece todos os anos na Praia dos Ingleses e o Iron Man que também tem sua largada anual bem próximo dali, em Jurerê Internacional. Apesar de parecerem destoantes, estas duas modalidades se assemelham em diversos aspectos. A começar por uma disciplina ferrenha que tanto os yôgins, que se dedicam seriamente a esta filosofia, quanto os Iron mans possuem. Nos dois casos, a dedicação e o amor pelo que fazem são muitas vezes incompreendidos pelos demais mortais.

Durante a prova do Iron, meu avô, que me fazia companhia no evento, indagou “Eles não possuem patrocínio?” Poucos, menos de 10% dos 1500 atletas que se jogaram na água fria do mar naquele domingo escuro possuíam algum tipo de incentivo financeiro. Os demais são empresários, profissionais liberais, engenheiros e fazem aquilo tudo por puro life style. Também é comum as pessoas estranharem o fato de um praticante de SwáSthya Yôga seguir as orientações desta filosofia, mesmo estando integrado “ao mundo real”. Pensam que tanto os Irons quanto os yôgins não possuem profissões e que estes últimos ainda vivem isolados na montanha se alimentando de luz. Quanto estereótipo!

Mas no que mais os SwáSthya Yôgins e os Irons se assemelham é que por buscarem objetivos extremamente audaciosos visam a alta performance em tudo o que fazem. É difícil dizer se nadar 3600 metros, pedalar 180 km e depois de tudo isto ainda correr os 42km de uma maratona é mais difícil de se alcançar que a meta da filosofia indiana, um estado de consciência denominado samádhi e que representa a hiperconsciência ou mega lucidez.

O que podemos aprender com estes dois estilos de vida é que para se alcançar qualquer grande objetivo em nossas vidas, precisamos manter uma prática enérgica e cultivá-la por um longo período de tempo, sem interrupção e com profunda dedicação e também é necessário subjugar a compulsão pelas dispersões, que certamente aparecerão para nos tirarem do caminho.










O MASP está merecendo uma visita. Com três exposições de altíssimo nível o Museu de Arte de São Paulo está de parabéns. Destaque especial para o mais Nova Iorquino e reconhecido dos artistas brasileiros Vik Muniz. Seu trabalho é de uma dedicação e precisão de impressionar a qualquer um.

A história de Vik Muniz é bastante interessante. Ele morava em São Paulo, trabalhava com publicidade e jamais pensara em ser artista. Um dia foi apartar uma briga na rua e quando estava voltando para o seu carro um dos indelinquentes atirou na sua perna. O cara era rico e ofereceu uma boa grana para que ele não prestasse queixa. Vik aceitou a proposta e revoltado com a violência brasileira rumou para os EUA. Mesmo recomeçando a vida limpando supermercado conseguiu tornar-se um expoente artista reconhecido mundialmente. Claro que ficamos questionando. E se ele tivesse ficado no Brasil, mesmo tendo uma situação financeira melhor, conseguiria desenvolver plenamente o seu talento?

A questão fica no ar, mas a sugestão é veemente: visite o MASP, você não vai se arrepender.

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