"A arte imita a vida" - se a artista plástica e também escritora Sophie Calle fosse escrever esse axioma, certamente o inverteria. "A vida imita a arte" - soa mais afinado em seu refinado sotaque parisiense.

Certa vez, Sophie decidiu, sem motivo algum, seguir um homem desconhecido que caminhava pela rua. Da experiência, criou uma instalação. Em Veneza, admitiu-se como camareira de um hotel para fotografar as malas dos hóspedes. Depois dormiu numa cama macia no último andar da Torre Eifel, e continuou a colecionar experiências e exposições.

A artista repete um interessante ritual nas comemorações dos seus aniversário. Convida para a festa, um número de amigos igual aos anos que tem e um convidado surpresa, representando o ano que virá, certamente inusitado. Também não abre os presentes, guardando-os para momentos de solidão ou para criar mais obras de arte. Este estranho costume intrigou um dos desconhecidos convidados, o escritor Grégoire Bouiller. Inspirado pela experiência maluca que viveu com os amigos de Sophie escreveu, O convidado surpresa.

Após ler este livro, Sophie decidiu ir atrás do autor para conhecê-lo, pois não se lembrava dele na sua casa. E como num romântico conto francês começaram a namorar. O relacionamento rendeu mais um livro e no dia em que foi lançado, Grégoire escreveu um e-mail à Sophie rompendo com ela.

Desamparada, manteve seu dilema de criar arte a partir da vida e vida a partir da arte. Entregou a carta para que 107 profissionais o interpretassem. A dançarina dançou, a juiza julgou, a atiradora atirou. Cuide de você - última frase do e-mail - deu nome a exposição que foi aberta no SESC Pompéia neste sábado. A instalação está bélissima e nos faz refletir sobre as infinitas possibilidades que temos para interpretar os fatos.

Chamada para palestrar na FLIP, Sophie sugeriu que também convidassem Grégoire, para que se encontrassem publicamente pela primeira vez desde o famoso (agora mais que nunca) e-mail. Tivemos com isto, a oportunidade de ouvir mais um importante ponto de vista, o daquele que gerou toda a turbulência. Era notável uma certa tensão no ar enquanto debatiam. O casal me fez lembrar aquele ditado que diz que "há a sua história, a minha história e a história verdadeira" no caso de Sophie e Grégoire ainda há mais 107 história para serem pensadas e aprecidas como verdadeiras obras de Arte.


Letícia Matos, Grégoire Bouiller, Atiq Rahimi, Sophie Calle e eu durante a FLIP 2009