Quando visitou o Palácio de Versalhes, René Descartes, matemático e filósofo francês do século XVII, ficou admirado com todos os truques que Luís XIV havia colocado por ali. Águas saltavam,
música tocava e o famoso Netuno saía de dentro da fonte de maneira automática. Essa visão inspirou-o a formular uma tese com a qual ele tentou provar que o mundo também funcionava de maneira mecânica, onde tudo poderia ser previsto. Baseado nisso,
Descartes propôs que houvesse uma divisão clara para a atuação da ciência e da religião. A primeira estudaria a matéria e a outra atuaria nas esferas mais sutis, como mente e espírito.
A liberdade que os cientistas ganharam a partir daquele momento foi fundamental para que Isaac Newton fizesse suas pesquisas sem a intervenção da Igreja e chegasse a conclusões que, em outras épocas, o condenariam à morte. A ciência foi ganhando cada vez mais poder à medida que comprovava no cotidiano uma a uma de suas leis. No início do século XVIII fervilhava tanto otimismo científico que um colega de
Newton, Pierre-Simon de Laplace, escreveu a seguinte constatação “Uma inteligência que, em qualquer dado momento, conhecesse todas as forças através das quais a natureza é animada e os estados dos corpos do quais ela é composta, abrangeria – se ela fosse vasta o suficiente para submeter os dados à análise – na mesma fórmula os movimentos dos grandes corpos do universo e os átomos mais leves: nada seria duvidoso para essa inteligência e o futuro, tal como o passado, seria o presente aos seus olhos.”
Pobre do livre-arbítrio humano que tinha acabado de sair das mãos da Igreja e caía imediatamente numa máquina mecânica totalmente programada.
Assim como A.A. Michelson, autor da frase “basta adicionar algumas casas decimais aos resultados já obtidos”, a maioria dos cientistas do início do século XX acreditavam que se descobrissem uma ou outra lei que faltava tudo seria desvendado e o universo caminharia numa direção previamente calculada.
Entretanto, nuvens cinzentas resistiam em permanecer no horizonte da ciência. Questões simples como: Porque nos bronzeamos no sol e não quando estamos na frente da lareira uma vez que as duas fontes de calor emitem radiação? Não conseguiam ser respondidas com o arsenal de conhecimento materialista que os especialistas possuíam.
Foi no início do século XX quando a ciência foi abençoada pela conjunção de vários gênios, como Max Planck, Einstein, Niels Bohr, De Broglie e Erwin Schrödinger trabalhando simultaneamente na mesma linha de pensamento que nossa maneira de ver o mundo mudou completamente. Esse grupo rompeu com toda a previsibilidade newtoniana fazendo uma revolução no pensamento científico.
Tudo começou quando Planck propôs que eram os elétrons que carregavam a energia como se fossem minúsculos pacotes que pegavam o calor emitido pela madeira incandescente ou pelo sol e o transferiam sob a forma de radiação. Quando liberavam essa energia, perdiam força e saltavam da órbita que estavam para outra abaixo. Para liberarem os raios ultravioletas precisavam dar um grande salto quântico o que dependia de muito calor, que a luz da lareira não possuía. Pois é justamente este tipo salto, chamado de salto quântico, que começou a desmanchar o sonho dos antigos cientistas de preverem tudo o que aconteceria na natureza.
Quando os pacotes de energia dos elétrons saltavam de uma órbita para outra, não se transferiam de maneira previsível, tal como tendemos a imaginar. O que de fato acontece é que o elétron desaparece daquela órbita e surge em outra, sem passar pelo espaço intermediário naqueles breves instantes. Bohr ampliou essa teoria provando que todos os átomos e não apenas os da luz produzem esses saltos. O que levou a imprevisibilidade do funcionamento do universo para tudo o que existe e ampliou as possibilidades da existência.
Em seguida Einstein trouxe outra incógnita mostrando que a luz pode ser tanto partícula (fóton) quanto uma onda, dependendo apenas de como decidimos tê-la. Caso a coloquemos em uma câmara de condensação a luz se torna matéria (fóton) e quando acendemos a lâmpada do quarto ela é onda. Assim como Bohr observou que o comportamento dos elétrons no átomo da luz se estendia para os outros átomos, De Broglie também conseguiu provar que todos os átomos podem ser matéria ou onda e, mais uma vez, a escolha do homem é que determina a formação da natureza.
Complexos experimentos científicos à parte, o fato é que o início do século XXI nos traz um mundo de infinitas possibilidades a ser explorado. Um mundo no qual, cada vez mais poderemos perceber a interferência da consciência humana em sua construção. Um mundo que dependerá apenas das nossas escolhas para que seja luz ou escuridão para sempre...
Foto de 1927 no quinto congresso Solvay de Física, realizado em Bruxelas:
[1] - Max Planck - Nobel de 1918; [2] - Albert Einstein - Nobel de 1921; [3] - Niels Bohr - Nobel de 1922; [4] - Erwin Schrödinger - Nobel de 1933; [5] - Louis de Broglie - Nobel de 1929; [6] - Wolfgang Pauli - Nobel de 1945; [7] - Werner Heisenberg - Nobel de 1932; [8] - Paul Dirac - Nobel de 1933; [9] - Max Born - Nobel de 1954.
Sair da relação restrita de causa e efeito para um universo de variáveis interdependentes fez e faz muito bem à nossa querida ciência. Talvez nem tão bem aos cientistas que se acomodaram naquela visão antiga, mas esta é uma outra conversa...
Parabéns por mais esse texto, como sempre excelente.
Forte abraço!
Tudo são possibilidades e um novo leque delas se abre a cada escolha que fazemos.
Obrigado por este texto tão bem elaboraco.
Parabens,
Swásthya !!!