Quando Voltaire escreveu seu livro de maior sucesso: Cândido, ele o fez em protesto às filosofias otimistas que vinham sendo difundidas por Pensadores alemães. O Livro de Voltaire é altamente refratário à forma de raciocinar vigente na época, na qual eles achavam que um Deus infinitamente bom de quem logicamente era de se esperar a criação de um mundo amável e feliz, escolheu o melhor dos mundos possíveis. As coisas ruins que aconteciam eram apenas uma consequência da imperfeição de todo o ser criado. Para os Pensadores desta época a priori tudo caminha para o melhor.

Para Voltaire os acontecimentos cotidianos mostravam um mundo totalmente diferente do que desejariam seus contemporâneos. Nesse livro ele apresenta um cenário no qual quase todas as situações que vivemos são desagradáveis. O célebre filósofo francês achava que não devemos ter uma visão positiva da vida. Cândido, o personagem principal de seu pequeno romance, era um rapaz muito puro e ingênuo, ele seguia todas as orientações de seu tutor o Dr. Pangloss, que por sua vez tendia ao pensamento otimista e acabava sempre se colocando em situações bem difíceis. Por acreditar que esse é o melhor dos mundos e que no final tudo iria dar certo, Cândido assumia uma postura extremamente passiva em relação a sua vida e acabava pagando por isso.

Se nosso ingênuo aprendiz tivesse um mestre que seguisse a antiga filosofia naturalista da Índia chamada Sámkhya, provavelmente as coisas aconteceriam de forma diferente. Essa filosofia apesar de ter mais de 5000 anos é muito mais coerente com a forma atual de pensar e agir. Para os naturalistas hindus a existência não é boa nem ruim ela simplesmente É. Segundo esses sábio, a chispa de vida que possuímos em nossa essência não possui atributo algum. Essa interpretação pode soar um pouco estranha para nós, pois como nos mantemos constantemente julgando tudo a nossa volta é inconcebível algo que não possua adjetivos e que simplesmente seja. Porém, como esse plano de consciência está muito acima da mente humana tudo o que é dito sobre o que realmente somos reflete apenas nossas vontades ou medos e não a realidade. Devemos procurar, segundo essa visão, não interpretar os fatos como sendo bons ou ruins, positivos ou negativos, mas apreendermos com todas as situações buscando sempre o caminho da nossa consciência para sermos cada vez mais felizes. A atitude do não julgar faz com que consigamos ver o mundo sem as dualidades e nos aproximemos mais da sua veracidade. Todo o julgamento é parcial, ele parte sempre de um ponto de vista e acaba nos prendendo na superficialidade. O sábio tem ciência de que existe a minha história a sua história e a história verdadeira. Ele age sem tomar partido de uma delas observando e escolhendo aquilo que lhe trará mais desenvolvimento pessoal e mais felicidade.

Jamais devemos tomar uma atitude passiva perante a vida, pois o ritmo de evolução da natureza é muito lento e se assim fizermos entramos em um canal de condicionamento exatamente igual ao dos animais. O ser humano deve trabalhar todos os dias para fugir do que a sociedade impõe a ele como sendo o melhor e descobrir o que sua consciência diz que é melhor. Ele deve lutar para simplesmente ser legitimamente.

Um Cândido com pensamento Sámkhya saberia desde o começo que dificuldades existem na vida e que a vida é a arte de vencê-las. Essas situações quando bem administradas geram mais conhecimento e aprendizado para que não repitamos os mesmos erros no futuro e não entremos nas mesmas situações. Ele não aceitaria as circunstâncias difíceis passivamente e lutaria para buscar mais conforto e felicidade e se seguisse sua consciência com certeza se realizaria como ser humano e construiria grandes obras para a humanidade.