Os conceitos de público e privado já são muito antigos e muito bem distintos em países desenvolvidos, mas ainda não ficou muito bem definido nesse subcontinente chamado Brasil. A diferenciação entre público e privado nos remete a antiga Grécia na construção da antiga cidade-estado, onde houve uma distinção clara entre o que era do indivíduo e o que pertencia a todos. Cada cidadão que nasceu na Grécia a partir da construção da polis sabia que teria que conviver com duas ordens de existências e há uma grande diferença entre aquilo que lhe é próprio e o que é comum. A construção da polis foi feita com a destruição de todas as unidades organizadas à base de parentescos. Antes de construir o conceito de vida pública e uma sociedade, os gregos e todos os seus contemporâneos viviam apenas em grupos de famílias e assim faziam com o único objetivo, o de preservar a própria vida. Isso não diferencia em nada o ser humano de outros animais que se reúnem para protegerem-se.
Na vida familiar existe sempre uma forte imposição tirânica do chefe de família que pouco se importa com as opiniões dos membros desse grupo e deixa-os subordinados a sua vontade e consequentemente com pouca liberdade. Da mesma forma agiam as antigas organizações, pré-políticas, nas quais povos bárbaros faziam constantemente uso da violência. Na família o abuso de poder é usado como forma de moldar o comportamento daqueles que estão abaixo do patriarca. As organizações não políticas copiaram essa, que era a única forma, que conheciam de mudar a atitude das pessoas.
Quando o conceito de vida pública foi criado junto com as cidades-estados a ideologia era construir um ambiente no qual imperasse a liberdade, responsabilidade por aquilo que era de todos e a participação nas decisões. O ser humano já havia vencido a necessidade de se manter em família para sobreviver e a partir de agora ele dissolveria seu ego no povo e seria mais um a lutar pelo bem comum de todos. Na polis a violência como forma de persuasão não era bem vista uma vez que o discurso verbal era exaltado como uma das mais brilhantes qualidades políticas. O maior êxito que se poderia ter nesse sentido era convencer o outro com argumentos lógicos, e não com a imposição da força, a mudar de opinião. Outro item muito importante na concepção da política é que todos deveriam colocar os interesses comuns acima das vontades particulares.
O que vemos hoje no Brasil é a maior oposição a tudo aquilo que foi concebido como um estado ideal que desejava a máxima liberdade para todos. Comecemos pela queda das instituições a base de parentescos e o que vemos são cada vez mais cargos de confiança (confiança de quem? Do estado certamente não, mas do ``chefe da família``) vemos cada vez menos mudança de cultura a partir de persuasões públicas e cada vez mais imposição de punições e até violência para nos adequarmos ao que desejam nossos políticos. Por fim vejo que nos afastamos cada vez mais dos planos de Platão que previam a abolição da vida privada e a expansão da esfera pública para que o povo tivesse mais livre-arbítrio e nos deparamos cada vez mais com a colocação das vontades próprias acima das do Estado e da população. O caminho do retorno às civilizações pré-políticas é o que estamos traçando com essas atitudes e isso é preciso mudar.
Como desejamos um país mais político, vamos usar as armas desse sistema para vencer a situação atual. Usemos o poder da palavra e da persuasão para conscientizar as pessoas do que vem acontecendo. Não aceitemos de forma alguma cargos de confiança, isso é totalmente anti-democrático e usemos a mais poderosa arma que os gregos criaram que é o poder do voto e a participação política. Assim podemos voltar a sonhar com um país prospero e livre.
Você está em: Home » Política »O caminho inverso
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Daniel De Nardi
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Política
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